Prada chama veteranos da Disney e desenha o Natal à mão, sem citar a IA
Em “Drawing Prada”, atores contracenam com raposas e ratos desenhados pela equipe de John Pomeroy, que largou a Disney em 1979 em nome do traço. A marca nunca menciona inteligência artificial, e nem precisa.

Em um fim de ano em que a pergunta mais comum sobre publicidade é “isso foi feito com IA?”, a Prada respondeu com um lápis. Lançada no fim de outubro, a campanha “Drawing Prada: Animated by Hand” coloca Maya Hawke, Sadie Sink, Kelvin Harrison Jr., Luther Ford e Chen Haoyu, filmados e fotografados por Glen Luchford, para contracenar com animais e cenários desenhados à mão. A direção de animação é de John Pomeroy, veterano da Disney. A direção criativa é de Miuccia Prada e Raf Simons, com Ferdinando Verderi à frente da campanha.
Uma raposa, um lince e três ratos ladrões
Segundo a Creative Bloq, uma raposa sarcástica segue Maya Hawke na neve, um lince observa Kelvin Harrison Jr. e três ratinhos levam o sapato de Sadie Sink. É um achado simples: quem deseja o produto da Prada é a fábula. A marca chama a técnica de “anacrônica e romântica” e resume o projeto, em seu site, como “a Prada fantasy, created by hand” (uma fantasia Prada, criada à mão).
A Prada também divulgou um making-of, em que os personagens surgem no papel antes de encontrar os atores. “Aprendi meu ofício com lápis e papel”, diz Pomeroy, em tradução livre. Tom Bancroft, animador-chefe, que tem no currículo “A Bela e a Fera”, “Aladdin”, “O Rei Leão” e “Mulan”, explica o clima da equipe: “O legal é que o John reuniu a banda de novo”.
A banda que largou a Disney em 1979
A escolha de Pomeroy vai além da nostalgia, e é aí que a história fica boa. Ele entrou na Disney nos anos 1970 e trabalhou em “Bernardo e Bianca” e “O Cão e a Raposa”. Em 1979, saiu do estúdio com Don Bluth e Gary Goldman, seguido no dia seguinte por outros 11 animadores. Segundo a Animation World Network, o grupo alegava que a direção não valorizava mais a qualidade da arte. Dali nasceu o estúdio de “A Ratinha Valente”, “Fievel: Um Conto Americano” e “Em Busca do Vale Encantado”. Mais tarde, Pomeroy voltou à Disney e supervisionou a animação de John Smith em “Pocahontas”.
Ou seja: a Prada não contratou apenas um animador experiente. Contratou alguém que já pediu demissão em nome do traço. Para uma campanha sobre ofício, é difícil achar biografia melhor.
O outro Natal da publicidade
O contraste está em cartaz há dois anos. A Coca-Cola usou IA generativa em seus filmes de fim de ano de 2024 e 2025. No ano passado, anunciou releituras de “Holidays Are Coming” feitas com os estúdios Secret Level e Silverside AI, e seu executivo Pratik Thakar definiu a tecnologia como “um superpoder” para execução e produção (tradução livre). Em dezembro de 2025, o McDonald’s da Holanda tirou do ar um filme de Natal feito com IA depois das críticas nas redes.
A Creative Bloq usou o caso para mandar um recado direto, “Over to you, Coca-Cola”, mas a comparação é do site, não da Prada. Nas fontes consultadas para esta matéria, o filme de Natal de 2026 da Coca-Cola ainda não apareceu. O artesanato, por sua vez, já vinha virando argumento: o B9 lembra que o rebrand feito à mão da Apple TV levou o Grand Prix de Design em Cannes, e que as cafeterias em miniatura da De’Longhi ganharam o de Industry Craft.
Fontes
- B9: Prada chama veterano da Disney para desenhar à mão sua campanha de Natal
- Creative Bloq: Prada’s hand-drawn holiday campaign
- Meio & Mensagem: Prada escala animador de clássicos da Disney
- Marketing-Interactive: Prada trades pixels for pencils
- Prada: Holiday 2026 Campaign
- Animation World Network: Don Bluth Goes Independent
- The Coca-Cola Company: campanha global de fim de ano de 2025
- BNN Bloomberg: McDonald’s pulls Dutch AI Christmas ad